burburinho

o homem da areia

livros por Nemo Nox

Ernst Theodor Amadeus Hoffmann, mais conhecido como E.T.A. Hoffmann (1776-1822), foi um sujeito ecltico: advogado, burocrata, compositor, maestro, crtico musical, desenhista, caricaturista, professor. Mas acabou ficando famoso mesmo por causa de sua literatura imaginativa, formada principalmente por contos de horror e fico-cientfica, gneros ainda novos mas muito adequados ao esprito romntico da poca. Vrias de suas histrias foram adaptadas para peras ou bailados, como Les Contes d'Hoffmann (de Jacques Offenbach), O Quebra-Nozes e o Rei dos Camundongos (de Pyotr Ilyich Tchaikovsky) e Coppelia (de Lo Delibes, inspirado no conto O Homem da Areia).

O Homem da Areia (Der Sandmann), o primeiro conto do livro Die Nachtstcke, um dos trabalhos mais famosos de Hoffmann. No bastando ter servido de modelo para espetculos musicais, foi tambm material de estudo para ningum menos que Sigmund Freud, que em seu ensaio O Estranho (Das Unheimliche), de 1919, resume e interpreta o conto.

Numa carta ao seu amigo de infncia Lothar, o estudante universitrio Nathanael relembra episdios inquietantes do seu passado. Na hora de dormir, sua me e sua bab o assustavam com o mito popular do Homem da Areia: " um homem perverso que chega quando as crianas no vo para a cama, e joga punhados de areia nos olhos delas, de modo que estes saltam sangrando da cabea. Ele coloca ento os olhos num saco e os leva para a meia-lua, para alimentar os seus filhos." O pequeno Nathanael acaba associando esta figura lendria com um homem que visitava seu pai noite, o advogado Coppelius, e uma noite, o menino se enche de coragem e se esconde num armrio para espiar o que faziam os dois naqueles misteriosos encontros. Numa narrativa febril, que deixa dvidas se estamos lendo sobre fatos realmente ocorridos ou sobre a imaginao hiperativa de uma criana assustada, Nathanael conta ter testemunhado o que parece uma experincia de alquimia, mas depois de ser descoberto em seu esconderijo recebe a ameaa de ter seus olhos arrancados por Coppelius e acaba desmaiando. Um ano depois, durante outra visita noturna de Coppelius, ocorre uma exploso na qual o pai de Nathanael morre e o advogado misterioso desaparece.

A razo de Nathanael lembrar-se disto tanto tempo depois que acredita ter reecontrado Coppelius, agora usando uma nova identidade, a de Coppola, vendedor de barmetros e telescpios. E com um telescpio comprado dele que Nathanael v na casa em frente sua a bela Olmpia, por quem se apaixona instantnea e magicamente, esquecendo-se mesmo da sua noiva Clara, irm de Lothar. E aqui a trama salta do terreno dos mitos populares e da alquimia para a temtica da robtica e da inteligncia artificial, j que Olvia nada mais que um rob criado por seu "pai", o professor Spalanzani, com a ajuda de Coppelius/Coppola, responsvel por fornecer os olhos do autmato. A histria continua com novos confrontos entre Nathanael e o estranho homem que o atormenta, sempre explorando temas habituais nos contos de Hoffmann, particularmente o das duplicidades e dos contrastes (Coppelius/Coppola, Olvia/Clara, real/imaginado).

Freud, sempre rpido em aplicar uma interpretao sexual a qualquer histria, encanta-se com as possibilidades abertas por Der Sandmann: "Sabemos, no entanto, pela experincia psicanaltica, que o medo de ferir ou perder os olhos um dos mais terrveis temores das crianas. Muitos adultos conservam uma apreenso nesse aspecto, e nenhum outro dano fsico mais temido por esses adultos do que um ferimento nos olhos. Estamos acostumados, tambm, a dizer que estimamos uma coisa como a menina dos olhos. O estudo dos sonhos, das fantasias e dos mitos ensinou-nos que a ansiedade em relao aos prprios olhos, o medo de ficar cego, muitas vezes um substituto do temor de ser castrado. O autocegamento do criminoso mtico, dipo, era simplesmente uma forma atenuada do castigo da castrao - o nico castigo que era adequado a ele pela lex tallionis. (...) Ademais, eu no recomendaria a qualquer oponente da concepo psicanaltica que escolhesse particularmente essa histria do Homem da Areia, para apoiar o argumento de que a ansiedade em relao aos olhos nada tem a ver com o complexo de castrao. Por que razo, ento, colocou Hoffmann essa ansiedade em relao to ntima com a morte do pai? E por que o Homem da Areia aparece sempre como um perturbador do amor? Ele separa o infeliz Nataniel da sua noiva e do irmo desta, seu melhor amigo; ele destri o segundo objeto do seu amor, Olmpia, a linda boneca (...). Na histria, elementos como estes e muitos outros parecem arbitrrios e sem sentido, na medida em que negamos toda ligao entre os medos relacionados com os olhos e com a castrao; mas tornam-se inteligveis to logo substitumos o Homem da Areia pelo pai temido, de cujas mos esperada a castrao. Arriscar-nos-emos, portanto, a referir o estranho efeito do Homem da Areia ansiedade pertencente ao complexo de castrao da infncia."

Depois de ler o conto Der Sandmann, mesmo se voc no concordar com a interpretao de Freud, talvez concorde com esta outra afirmao do pai da psicanlise: "Hoffmann o mestre incomparvel do estranho na literatura."


pensamentos despenteados para dias de vendaval
Copyright © 2001-2005 Nemo Nox. Todos os direitos reservados.