burburinho

o dia em que tomei caf da manh com salvador dal

miscelnea por Nemo Nox

Nove e trinta da manh. Para o meu relgio interno, era como se fosse madrugada. Odeio acordar cedo. Mesmo assim, l estava eu em pleno MASP, culos escuros disfarando as olheiras, frente a uma simptica mesa preparada para o caf da manh.

O gentil convite da organizao da esperada exposio de Salvador Dal de 1998 era irrecusvel para um apreciador do surrealismo como eu.

Na vspera, cheguei a sonhar com ovos fritos moles como relgios dalinianos e com formigas passeando pela alva toalha do prometido caf da manh. Felizmente, o desjejum nada teve de incomum ou inusitado, e, em meio a um cardume de jornalistas bocejantes, pude degustar alguns pezinhos inocentes, lembrando-me sempre que, nas palavras do prprio mestre, todas as verdades dalinianas comeam pela boca e se afirmam pelo impulso visceral.

Mal terminei de espanar as migalhas do colo, chegaram-me s mos alguns slides complementares ao material de divulgao que recebi ao chegar ao MASP. Sentindo-me vtima de uma brincadeira surrealista, constatei que tinha seis cpias idnticas da mesma reproduo, um Espectro de Vermeer de Delft. Como se o espectro do prprio Dal andasse por ali, assombrando a sala com brincadeiras irreverentes, descobri que todos os que me cercavam tinham o mesmo problema, uma coleo de diapositivos gmeos. Coisa simples de ser solucionada pela eficiente equipe do museu, mas estava dado o primeiro sinal da presena etrea do pintor catalo.

Terminado o ataque aos pezinhos e a sinfonia de xcaras, passamos ao auditrio do museu, para ouvir o ilustre Robert Descharnes, curador da exposio e amigo de Dal durante algumas dezenas de anos. No recinto de paredes de concreto vista, continuamos a sentir as influncias post mortem do surrealista. A entrevista coletiva comeou tendo por trilha sonora um concerto para martelo e britadeira que poderia ter sido composto pelo prprio Dal. Vez por outra, a porta do auditrio abria-se estrepitosamente, e quase todos voltavamo-nos esperando a entrada solene talvez de uma Gala desnuda acompanhada de um cisne branco ou mesmo de um elefante de pernas finas. Mas quem entrava era invariavelmente mais um jornalista ensonado, frustrando os que contavam com um sinal vindo do alm-tmulo daliniano. Os eflvios surrealistas continuavam sutis, mas sempre presentes. O dilogo com o simptico Monsieur Descharnes chegou a ser interrompido, mais uma vez como que por um toque da mo invisvel do falecido de bigodes pontudos, pelo ronco solto e percussivo de um operador de cmara adormecido ao lado de seu equipamento. Definitivamente, o espectro de Dal pairava zombateiramente sobre ns.

Finalmente, o momento que mais espervamos: uma visita exposio, ainda em fase de montagem. L estavam, numa desordem organizada, algumas das peas mais espantosas do repertrio daliniano. leos como a Madonna de Port Lligat ou Sombras da Noite Declinante, bronzes como a Leda Atmica ou a sugestiva Grande Vnus com Gavetas, mais gravuras, desenhos, cenografias e muitas fotografias documentando o surrealista em ao, num total de quase meio milhar de obras.

Dominando o ambiente, porm, como que vigiando a todos e fazendo com que cada um dos visitantes se sentisse em parte um intruso, imperava o impressionante rinoceronte rendado, monstro de duas toneladas e meia de bronze. Solene, imperial, casto, teratolgico e logartmico. Ao mesmo tempo mtico e cotidiano. Enfim, um rinoceronte com todo o peso do onirismo daliniano, herdeiro de Drer e precursor de Fellini. Talvez tenha sido o sono, ou ainda a influncia do ambiente e das circunstncias, mas estou quase certo de ter visto o monstrengo piscar os olhos. Sim, durante um imperceptvel momento, o rinoceronte moveu as plpebras de bronze. Tive ento certeza que Dal estava por perto, divertindo-se naquele caf da manh mais que qualquer um de seus convidados.


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