burburinho

carrie

livros por Gian Danton

H uma tendncia generalizada entre os crticos mal-humorados em considerar Stephen King um escritor ruim. Essa postura fundamenta-se na idia de que tudo que faz sucesso no tem qualidade. Os grandes escritores seriam aqueles voltados para pequenos pblicos. Mas basta uma olhada rpida em Carrie, a Estranha (Carrie, 1974), romance de estria de Stephen King, para perceber o bvio: esse pessoal no sabe se divertir.

Carrie uma leitura divertida que, no entanto, no subestima a inteligncia do leitor. A narrativa no linear. A histria principal entremeada por fatos do passado e recortes de revistas de livros, tcnica muito usada por grandes escritores ps-modernos. King conta que, na poca em que comeou a escrever a histria, era professor de uma escola de ensino mdio. A renda no era suficiente para sustentar a famlia com dois filhos. Assim, para se manter, ele vendia contos de terror para revistas mensais. Quando uma das crianas aparecia com uma otite, Tabitha, a mulher do escritor, dizia: "Rpido, Steve, pense num monstro!".

No final do ano de 1972, King teve a idia para um conto sobre uma menina com poderes telecinticos. A trama era baseada em uma matria da revista Life sobre uma casa assombrada por poltergeist. Entretanto, os pesquisadores logo descobriram que o caso no tinha nada a ver com fantasmas. O centro do fenmeno era uma menina. Quando ela estava em casa, objetos saam voando. Quando ela saa, as coisas voltavam a ficar comportadas. A idia do artigo era de que meninas na puberdade tinham despertado um poder telecintico capaz de mover objetos. Claro, isso chamou a ateno de um escritor que ganhava dinheiro extra vendendo histrias para revistas de terror.

King, na poca, morava em trailer com famlia, e o nico lugar disponvel para escrever era prximo da mquina de lavar roupa. Ele se sentou l, colocou a mquina sobre o colo e comeou a escrever em espao um, sem margens, para economizar papel. Quando percebeu que a histria estava se tornando maior que um conto, ele a jogou fora. Afinal, ele precisava de dinheiro imediato, e uma novela era muito trabalho. Alm disso, um texto desses encontraria maior dificuldade de ser publicado. Carrie no existiria se no fosse Tabitha. Ela foi at a lixeira, limpou o papel e comeou a ler. Gostou e incentivou o marido a continuar escrevendo. Ele o fez apenas para agrad-la.

De fato, foi muito difcil encontrar um editor para a histria, e o nico que aceitou s o fez pensando no sucesso do filme O Exorcista. Para surpresa geral, Carrie, a Estranha se tornou um best seller. Virou at filme, pelas mos de Brian de Palma, o que projetou King para o Olimpo dos escritores americanos: Hollywood.

King colocou os seus prprios fantasmas na histria: duas meninas, colegas de escolas, ambas j falecidas na poca. Uma delas, Tina White, era gorducha e quieta. O fato de usar sempre a mesma roupa fazia dela a vtima potencial de todas as brincadeiras sdicas dos colegas. Era ela que sempre sobrava na dana das cadeiras, era ela que sempre carregava um cartaz dizendo "me chute" colado ao traseiro. A outra, Sandra Irving, era filha de uma fantica religiosa e tinha ataques epilpticos. Usava roupas pudicas e antiquadas. Tudo isso fazia dela um alvo muito bom para a chacota das crianas. Carrie White uma mistura das duas. Filha de uma fantica religiosa, que a sufoca e a impede de ter uma vida normal, ela humilhada na escola por ser diferente e por usar roupas estranhas.

A cena inicial do filme particularmente significativa. Carrie est no banheiro, tomando banho com as outras meninas aps as aulas de ginstica. Ela tem dezessete anos e tem sua primeira menstruao. Carrie pensa que est morrendo de hemorragia. As colegas comeam a gritar com ela e a jogar absorventes. O episdio demonstra a total ignorncia da menina quanto s coisas da vida. Demonstra tambm a rejeio das outras garotas. Mas demonstra acima de tudo o que Carrie tem de diferente das colegas de King. No pice da humilhao, um lmpada estoura, revelando que a menina tem o poder mental chamado telecinsia. Carrie usar isso para se vingar de todos que a maltrataram e humilharam. O leitor sabe disso desde o primeiro momento. A graa no est em adivinhar o final (que, em certo sentido, bvio), mas em perceber a textura dos eventos que vo se acumulando at provocar a catstrofe final. Para isso, King se utiliza de fragmentos de livros, de revistas, jornais, de entrevistas que pessoas que conheceram Carrie White. As informaes so jogadas ao longo da histria, de maneira no-linear. como montar um quebra-cabea, mas sabendo que o resultado final ser assustador.


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