burburinho

superbrinquedos duram o vero todo

livros por Gian Danton

Voc real? Eu sou real? Imagine um garotinho de cinco anos tendo a percepo de que no um ser humano de verdade. Esse o princpio base do conto Superbrinquedos duram o vero todo, de Brian Aldiss, que a Companhia das Letras est lanando no livro homnimo.

Superbrinquedos j mereceria uma lida apenas por suas qualidades literrias. Mas h um motivo a mais. O conto inspirou Stanley Kubrick e Steven Spielberg a criarem Inteligncia Artificial, um dos melhores filmes do ano e desde j um dos clssicos da fico-cientfica. O conto narra a histria de um garotinho, David, que tenta ser amado pela me. O final, que deve ter sido surpreendente na poca, perde muito do impacto para quem assistiu o filme: David no um menino de verdade, mas um rob criado para entreter uma mulher que no pode ter filhos em decorrncia do controle de natalidade (os casais para terem filhos so sorteados como numa loteria).

A histria chamou a ateno de Kubrick. Aldiss passa todo o prefcio explicando sua relao com o genioso cineasta. Ele mencionou os trs filmes de fico-cientifica de Kubrick (Doutor Fantstico, 2001 e Laranja Mecnica) em seu livro Billion Year Spree (Orgia do Ano Bilho) no qual considera o cineasta o grande escritor de fico-cientfica de sua poca. Kubrick, que adorava elogios, telefonou para Aldiss. Depois se encontraram em um restaurante. Aldiss conta que Kubrick era um perfeito Che Guevara: botas pesadas, traje verde-oliva, boinas enterradas na cabea e barba.

Em 1982 os dois estavam conversando sobre Guerra nas Estrelas e sobre como histrias bobas podem se tornar uma forma de arte, quando surgiu a idia de fazer um filme de fico-cientfica. O plano era produzir um filme capaz de arrecadar tanto quanto Guerra nas Estrelas, mas, ao mesmo tempo, permitir ao diretor manter sua reputao de homem com conscincia social. Kubrick tinha na cabea a idia de que Superbrinquedos daria um timo filme. Aldiss no concordava, mas, em dificuldades financeiras, acabou vendendo os direitos sobre a histria e foi trabalhar com o cineasta no roteiro.

Todos os dias uma limusine aparecia na sua porta e ele era levado ao castelo Kubrick. Este aparecia todo amarfanhado, dizendo: "Vamos tomar um pouco de ar, Brian". E saam para o quintal. Mal haviam dado alguns passos, Kubrick j estava resfolegando e eles voltavam para dentro. Aldiss considera um indcio funesto o fato de ter recebido de Kubrick um exemplar ricamente ilustrado da histria de pinquio. "Nunca, jamais, em s conscincia, reescreva contos de fada", escreve o autor.

Ao longo do processo de criao, Aldiss foi produzindo novos contos, em continuao ao primeiro: Superbrinquedos quando vem o inverno e Superbrinquedos em outras estaes. Os trs contos juntos deveriam conter os contornos do que seria o filme. "Nada de Nova York inundada, nada de Fada Azul. Apenas um drama muito intenso e poderoso de amor e inteligncia." Todos ns sabemos que no foi esse o caminho seguido pelo filme. Spielberg transformou o conto em uma verso hi-tech do mito de Pinquio e uma jornada em busca da humanidade e do amor de uma me.

Se Aldiss estava certo ou no, uma questo para o leitor decidir. Mas a leitura dos trs contos que deram origem ao filme , sem dvida, saborosa. O mesmo pode-se dizer dos outros contos que compem a coletnea. Reduzir o interesse do livro a Superbrinquedos uma injustia ao autor (embora, obviamente, a Companhia das Letras tenha tido o a idia de lanar esse livro em decorrncia do sucesso do filme). As histrias revelam um humor cido e, s vezes, negro. o que acontece, por exemplo, em Sem Cabea. Um homem decide fazer uma autodegolao em pblico para arrecadar dinheiro para as crianas famintas da Turcomnia. O fato vira assunto de discusso e de explorao da mdia, com uma audincia estimada em quase dois bilhes de pessoas e certamente muitos lucros para as emissoras. Em I.I.I., lemos o anncio publicitrio de uma empresa de explorao espacial e o extermnio de espcies inteligentes mostrado como mrito financeiro: "Inteligentes ou no, os flabbers com certeza eram bastante saborosos e muito ajudaram a humanidade - graas poderosa subsidiria da I.I.I., a Latador".

Num campo que tem grandes expoentes, Aldiss encontrou um caminho prprio. Se Asimov o rei das tramas bem elaboradas e da divulgao cientfica, se Bradbury o mestre da fico-cientfica potica, Aldiss um especialista em transformar a fico-cientfica em crtica social.


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