burburinho

frankenstein

livros por Nemo Nox

O cinema contribuiu definitivamente para cristalizar o mito de Frankenstein. No imaginrio coletivo, a criatura tem o rosto maquiado e o andar oscilante de Boris Karloff. Mas as verses cinematogrficas tambm ajudaram a deturpar o original. O popular corcundinha Igor, por exemplo, uma inveno de Hollywood que no aparece nas pginas do livro de Mary Shelley.

Frankenstein, a obra de Mary Shelley, fruto de noites de chuva e enfado. Presos pelos temporais na casa sua onde passavam frias, Lord Byron e seus convidados, o doutor John Polidori, o poeta Percy Shelley e sua amante Mary, dedicaram-se a escrever histrias de fantasmas para passar o tempo. Byron iniciou ali seu poema vamprico Giaour. Polidori tambm enveredou pela trilha de sangue e criou o conto The Vampyre. Shelley, mais interessado em beber ludano e vociferar poemas para os cus encobertos, deixou passar a oportunidade. Mas sua namoradinha, a jovem Mary Wollstonecraft Godwin, com apenas dezenove anos na poca, escreveu o conto que mais tarde se transformaria na novela Frankenstein.

O livro uma histria dentro de outra, recurso muito usado em novelas gticas para dar uma aura de credibilidade a histrias inverossmeis. O explorador Robert Walton relata, em cartas sua irm, seu encontro com o desafortunado Frankenstein, que por sua vez conta a histria principal do livro, de como idealizou e executou a experincia cientfica que daria vida a uma criatura morta.

As duas principais crticas a Frankenstein so a sua excessiva extenso (originalmente planejado para ser um conto, s foi transformado em novela por insistncia de Percy Shelley) e a demasiadamente repentina mudana no comportamento do protagonista (que passa quase instantaneamente de incansvel denfensor do avano cientfico a qualquer custo a arrependido cientista com complexo de culpa). Mesmo assim, o tema e a idia central da obra eram to fortes que transformaram o livro no pilar central de um mito que se espalhou da literatura para o teatro, o cinema, os quadrinhos, a televiso, os jogos de computador, e uma srie de outros meios de comunicao.

Ainda que o livro de Mary Shelley tenha como subttulo O Prometeu Moderno (que pode ser atribudo moda, na poca de sua publicao, das citaes clssicas), a referncia imediata o mito da criao. Se, para os cristos, foi Deus que criou o homem, ao tentar dar vida sua prpria criatura, Frankenstein estaria tentando desempenhar um papel igualmente divino. Todas as desgraas subseqentes que recaem sobre o ousado cientista teriam explicao, portanto, na culpa e no castigo da tradio judaico-crist. E se Cristo, filho de Deus, morre na cruz para salvar a humanidade, tambm a criatura de Frankenstein dever ser sacrificada para que possamos todos viver em paz sem a intruso da cincia no territrio reservado divindade.

Condenar o doutor Frankenstein equivale a aprovar limites para o desenvolvimento cientfico? Ou trata-se simplesmente de uma histria sem compromissos morais, para passar o tempo em noites de tempestade? A escolha do leitor.


pensamentos despenteados para dias de vendaval
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