burburinho

o corao das trevas

livros por Nemo Nox

O horror! O horror!" Estas palavras, as ltimas do personagem Kurtz, tm confundido e fascinado os leitores desde a primeira publicao de O Corao das Trevas (Heart of Darkness), de Joseph Conrad, em 1902.

Numa narrativa baseada na idia de contraste (luz versus escurido, branco versus negro, civilizado versus selvagem, etc.) e interpenetrao de opostos (por exemplo, sempre que aparece um elemento branco ele est cercado de negro, e vice-versa), o livro ao mesmo tempo provocante e perturbador, atraindo e incomodando em doses iguais.

Nascido em 1857 na Polnia, Jzef Teodor Konrad Nalecz Korzeniowski viria a ser conhecido como Joseph Conrad, um dos maiores escritores da lngua inglesa, autor do clssico Lord Jim, entre muitos outros. E o mesmo narrador de Lord Jim, Charlie Marlow, espcie de alterego de Conrad, que nos conta (por figura interposta, j que existe uma histria dentro da histria) sua estranha aventura em O Corao das Trevas. Na verdade, o prprio Conrad fez uma viagem muito semelhante de Marlow, subindo o Rio Congo num barco a vapor.

Marlow faz a viagem em busca de Kurtz, um comerciante de marfim que se teria deixado influenciar demasiadamente pela magia do continente negro e sucumbido aos instintos selvagens. A histria pessoal de Kurtz simboliza a trajetria do europeu civilizado em contato com o primitivo continente africano. No incio, ele representa toda a cultura do homem branco, sendo ao mesmo tempo poeta, msico, poltico, comerciante, um polivalente homem da renascena. Ao final de sua trajetria, porm, j cometeu os mais diversos crimes contra a sociedade civil, que para ele j no faz sentido, e acaba por permitir um crime contra a religio crist, o de ser adorarado ele mesmo como um deus.

Marlow e Kurtz so quase como uma s pessoa, duas faces do mesmo ser separadas por um mundo de possibilidades. Marlow o que Kurtz poderia ter sido, Kurtz o que Marlow poderia vir a ser. Em sua viagem rio acima, enquanto Kurtz no passa de uma figura mtica formulada em descries divergentes de outros personagens, Marlow se afasta, aos poucos, fsica e mentalmente, do mundo dos brancos, retratado como brutal, e adentra a escurido da selva, smbolo da realidade e da verdade. Mas tambm esta simbologia ambgua, e por vezes no sabemos (nem ns leitores, nem o prprio Marlow) de que lado est a virtude ou onde reside a verdadeira escurido.

O Corao das Trevas j foi interpretado de diversas formas. Numa leitura historicista, pode ser considerado uma dura crtica ao colonialismo. Ou, numa viso psicolgica, pode ser encarado como uma jornada pesadelo adentro, ou mesmo um esbarro com a prpria loucura, da qual Marlow escapa mas no Kurtz. Ou, para o antroplogo ou socilogo, o livro pode ser um debate sobre o contraste entre civilizao e selvageria. Ou ainda pode ser visto como uma reflexo moral sobre o bem e o mal, que parecem ser os pontos centrais da trama. Como to poucas pginas podem conter tanta coisa?

Um aspecto algumas vezes enervante de O Corao das Trevas (mas talvez seja exatamente o que gera seu encanto) a forma como Conrad deixa o prprio leitor na escurido. As trevas so sempre mencionadas mas nunca definidas, o horror balbuciado por Kurtz nunca chega a ser explicado, tudo calculado para que o mistrio se perpetue. Ser explcito, como o prprio Conrad escreveu anos mais tarde, fatal para o fascnio de qualquer obra artstica, roubando a sugestividade e destruindo a iluso.


pensamentos despenteados para dias de vendaval
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