burburinho

aracy de almeida

msica por Rafael Lima

Araci [Teles] de Almeida nasceu em 19 de agosto de 1914 (mesmo ano de Dorival Caymmi), cresceu e foi criada no subrbio carioca do Encantado, numa grande famlia evanglica; o pai, Baltazar, era chefe de trens da Central do Brasil e a me, dona Hermognea, dona de casa. Tinha apenas irmos homens. Aracy foi colega do futuro pastor e radialista Alziro Zarur em seu primeiro colgio, no Engenho de Dentro, mudando-se em seguida para o Colgio Nacional, no Mier. Ainda de forma amadora, cantava hinos religiosos na Igreja Batista, pontos em terreiros de macumba e msicas de carnaval no bloco Somos de Pouco Falar. Registra-se uma nica ligao conhecida em sua vida: Aracy foi casada com um goleiro do Vasco da Gama (Rei), de quem se separou alguns anos depois. Seria, pelo resto da vida, uma solteira convicta, vindo a cunhar a famosa imagem do sabonete: "Acho esse babado de casamento uma onda bastante enrolada. No comeo, so flores e mais flores. Depois, pedras e espinhos. Todo o dia a mesma toalha, o mesmo sabonete. fogo."

Como Millr Fernandes, tambm morador do Mier, muito cedo tomou noo de seu talento, valorizando-o profissionalmente desde sempre ("quem canta de graa galo"). Ainda adolescente foi cantar nas rdios, trabalhando na Philips, onde fez dupla com Silvio Caldas no Programa Cas, e na Ipanema, onde chegou a excursionar com Carmen Miranda no Rio Grande do Sul. Atravs de um amigo comum, cantou Bom Dia, Meu Amor para Custdio Mesquita, o que lhe abriu caminho para a Rdio Educadora (futuramente, Tamoio), onde caiu na lbia de Noel Rosa.

Era 1933, e Noel a convidou para umas cervejas na Taberna da Glria. Foi o incio de uma bela amizade, o batismo de fogo profissional e uma influncia perene: "Apesar da minha pouca idade, achava Noel um fenmeno. Passei a andar atrs dele porque estava interessada em aparecer - quando voc tem pouca idade acredita nessas besteiras. Ele pegava da viola e eu cantava, em casas suspeitas, atrs do Mangue, no baixo meretrcio. Sua voz era fraca e ele estava a fim daquelas mulatas. Os dias em que convivi com Noel nesta terra foram dias muito engraados." Nessas incurses noturnas, ergueu brindes com Mrio de Andrade ("um matusquela") e figuras cujo nome o tempo perdeu, restando apenas registros como Saturnino, Zeca Meia-Noite, Brancura, Miguelzinho da Lapa. Tudo gente boa.

No convvio com Noel, Aracy forjaria o particularssimo e expressivo dialeto com que se expressou pelo resto da vida, linguagem permeada de grias e sintaxe recriada pela malandragem. S amizade, Aracy? " bom deixar dessas mumunhas e ficar claro que eu sempre fui uma mulatinha de bofes azedos, baixinha e que de bom s tinha a voz. Noel gostava de mim, no botequim. Pra cama ele s levava mulata grandona".

Gravou o primeiro long-play em 1934, pela Columbia, e assinou o primeiro contrato em 1935, com a Rdio Cruzeiro do Sul, onde gravou Seu Riso de Criana, composio de Noel Rosa - o incio da parceria que faria dela sua intrprete smbolo, a apenas dois anos da morte de Rosa. So delas os primeiros registros de Triste Cuca, Cansei de Pedir, Amor de Parceria, muitos deles definitivos. A dureza dos primeiros tempos de rdio renderia memrias inesquecveis ("Uma vez, o Kid Pepe me encostou uma faca deste tamanho na barriga, querendo me obrigar a gravar uma batucada de autoria dele, chamada O Que Tem, Iai. E eu gravei, compadre, com a faca na barriga e tudo."), nicas de quem pode reivindicar o posto de testemunha e pioneira: "O Mario [Lago] fica doido de raiva quando eu digo, mas a idia da Amlia fui eu quem deu. Um dia, sugeri uma frase, 'Amlia que era mulher de verdade', ao Wilson Batista. Ele disse que andava sem tempo para compor e ento o Ataulfo, que estava perto, pediu a frase para o Mario, e o samba foi feito. Tem mais. Dou at o local onde aconteceu: na Leiteria Nevada, ali na rua Bittencourt da Silva."

Seu repertrio no se resumiria, entretanto, a Noel, tendo se destacado como cantora de sambas e gravando, ao longo da dcada seguinte, msicas de Davi Nasser, Ary Barroso ( a notria Camisa Amarela), Haroldo Lobo, Assis Valente, alm de marchas de carnaval. O prprio Ary Barroso a teria escolhido para gravar originalmente Aquarela do Brasil, que, por um desacordo, acabou caindo nas mos de Chico Alves. A fama acabaria a levando ao palco da famosa boate Vogue, onde se apresentou em espetculos noturnos entre 1948 e 1952 - Aracy gravaria em 1951 um disco que resgatou ao pblico a obra de Noel Rosa, solidificando-a como intrpretes-smbolo. O Rio de Janeiro era a capital do pas, a Vogue era a casa noturna mais famosa e a nica sambista a rivalizar com Aracy era Carmen Miranda, que atrara certa xenofobia da opinio pblica depois de voltar dos EUA. Mas a rotina de Aracy era a mesma, toda noite: ao fim da apresentao, pegar o txi que a levaria at sua casa no Encantado.

nesta poca que estabelece convvio com conhecidos nomes da boemia e meio artstico cariocas, com quem firma slidas amizades: Di Cavalcanti, Vincius de Morais, Antonio Maria (que lhe dedicou uma crnica, assim como Joo Antonio), Paulo Mendes Campos, Fernando Lobo, convvio que lhe rendeu a formao cultural que no tivera na infncia - e as melhores histrias de sua mitologia, registradas pelo amigo Hermnio Bello de Carvalho. Conta-se, por exemplo, que Maria e Vincius, sem idia para o jingle de um regulador feminino que foram contratados para bolar, recorreram Imperatriz do Encantado. Ela lembrou-se da melodia de Noel Rosa para "O orvalho vem caindo..." e emendou: "O ovrio vem caindo..."

Aracy ouvia pera ("Adoro aquele berreiro"), jazz e tango; colecionava quadros (de Clovis Graciano, Antonio Bandeira, Heitor dos Prazeres, Aldemir Martins, alm do amigo Di), entre inmeras as quinquilharias que acumulava em sua casa no Encantado (de lustres da Bohemia a tapetes persas), e lia a Bblia, Augusto dos Anjos e Schopenhauer, acompanhada apenas de sua matilha pessoal de cinco raas de ces ("No gosto de gente. Eu gosto mesmo de cachorro"). Estranho caldeiro onde se desenvolveu uma personalidade de tal forma idiossincrtica, que levou ao comentrio de que ela foi existencialista antes dos existencialistas, hippie antes dos hippies e punk muito antes dos punks, numa poca em apenas a combinao de cala comprida e botas na sua indumentria bastava para chocar os costumes (Aracy usava bota por causa de um problema nos ps). De fato, vaidade feminina no era seu forte. Antonio Maria comentou certa vez que ela "corta o cabelo de um jeito que a torna parecida com Castro Alves".

Nenhuma citao traduz melhor o que ela era do que a maneira como respondeu ao "ol" meio para l do pouco caso do ator Maurcio Barroso, defronte Livraria Jaragu, em So Paulo, como se estivesse fazendo um favor ao cumpriment-la: "E eu l sou mulher de ol?!"

No comeo da dcada de cinqenta, mudou-se para So Paulo, onde ficou por doze anos. Seu prestgio e sua verve viajaram junto, no se abalando com os elogios com que a cobriu o ento governador Jnio Quadros: "Deixa disso, governador. Isso so lantejoulas da sua parte." Seguiram-lhe at So Paulo alguns amigos no "avio dos covardes" (o trem que ligava as duas cidades), quando Piratininga pode asistir in loco histrias que fizeram sua fama. Numa delas, conta-se que, na companhia de Ciro Monteiro e outros bambas devidamente alterados pelos excessos etlicos, Aracy tirou da manga a seguinte a seguinte carta ao se depararam com um vendedor de exemplares do Novo e do Velho Testamento em frente ao Hotel Normandie: "Agora, vou pagar uma rodada de Bblias!"

Em 1958, antevspera da inaugurao da bossa-nova, a Rainha dos Parangols gravou pela Polydor o LP Samba em Pessoa. No comeo, torceu o nariz para aquele ritmo, mas acabou no chegando a ter conflitos com os baluartes da bossa. Aracy era identificada com a velha guarda, com um certo samba de raiz, "do morro", que seria revitalizado graas parcela mais politizada dos bossa-novistas, na onda que tambm evidenciou Cartola (encontrado por Srgio Porto, lavando automveis), Carlos Cachaa, Z Ketti, Monsueto, todos representantes de uma tradio mais popular do que a bossa, fustigada por ser americanizada e elitista. Chegou inclusive a gravar um LP s de sambas pela Elenco, editora smbolo da bossa nova.

De volta ao Rio, em 1964, engrenou uma tima fase com apresentaes na boate Zum-Zum (ao lado Srgio Porto e Billy Blanco), e no ano seguinte, Samba Pede Passagem no Teatro Opinio, Conversa de Botequim, dirigido pela dupla Mile e Boscoli, no Crepsculo; e um espetculo na boate Le Club. A bossa nova nem tinha se estabelecido e j sofreria grande provao diante do novo veculo que ganhava espao: a televiso. Comeavam os festivais da cano, girando o foco dos refletores para as cmeras de tv, que passariam a empregar o maior nmero de artistas, muitos deles egressos do rdio. Deve ter sido natural a idia, naqueles anos amadorsticos e experimentais, de colocar Aracy apresentando um programa de calouros aos produtores da TV Record, e ainda mais divertido v-la expr seus maus bofes e malandragem diante de cmeras e refletores.

A partir da segunda metade da dcada de sessenta, Aracy participou como jurada em vrios festivais da cano: j era uma referncia. A exploso de novos talentos parecia sinalizar o momento para uma passagem de basto e ela no perdeu o bonde: "Eu moro l longe, tenho as minhas cachorrinhas de estimao e no preciso me aborrecer pra trabalhar. J enjoei de cantar e tem mais: o ambiente no ajuda, e no momento o mingau anda grosso demais..." O azedume da declarao no a impediu de dividir o palco do Teatro Cacilda Becker, em So Paulo, com recm descobertos Jorge Ben, Toquinho e Paulinho da Viola, ou de elevar um desconhecido e cabeludo Caetano Veloso ao rol de seus compositores preferidos. Tinha passado para o banco, mas no deixara de prestar ateno ao jogo.

Ainda na televiso, chegou a trabalhar como jurada na Buzina do Chacrinha, na TV Globo - Chacrinha a chamava de "Dama da Central" -, posto no qual encerraria a vida. Embora tenha sido a sua imagem mais conhecida na posteridade, de se perguntar quantos espectadores do Show de Calouros (a verso nacional do Gong Show, de Chuck Barris) do Programa Silvio Santos sabia ou, ao menos, desconfiava, que aquela velha coroca e mau humorada tinha andado nos crculos intelectuais de mais prestgio do pas, ou que tinha sido intrprete de Noel Rosa. A ranzinzice e o rigor com que julgava os aspirantes ("o matusquela vai levar dez pau") fez dela a mais conhecida e bem paga dos jurados que compunham um plantel dos mais bizarros do audiovisual brasileiro. Pode-se creditar seu mau humor caracterstico a uma combinao de ranhetice da idade, excesso crtico e exigncia profissional com a interpretao de uma caricatura perfeita para provocar a audincia. Paradoxalmente, o mau humor aumentou sua ligao afetiva com o pblico, com quem trocava gentilezas na rua, e acabou tornando-se um grilho: teve seu pedido de demisso negado, porque era grande responsvel pelos ndices do Ibope.

Debilitada por problemas fsicos, abandonou a televiso na segunda metade da dcada de oitenta, sendo hospitalizada em funo de um edema pulmonar que a levou ao coma por dois dias. Aps mais dois dias em lucidez, faleceu. Foi velada no Teatro Joo Caetano (onde fizera seu ltimo show - do projeto Seis e Meia, com Albino Pinheiro) e seu corpo percorreu, no carro dos bombeiros, diversos bairros freqentados por ela ao longo da vida: Copacabana, Glria, Lapa, Vila Isabel, Mier, Encantado. Era o adeus final da Arquiduquesa do Encantado, que partiu sem gravar o disco de composies de Cartola sonhado por Srgio Porto.

[Texto composto a partir de informaes do livro Araca, a Arquiduquesa do Encantado, de Hermnio Bello de Carvalho (Folha Seca, 2004), da crnica Dama do Encantado, de Joo Antonio, e dos sites Agenda do Samba-Choro e Dicionrio da MPB.]


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