burburinho

roald dahl

livros por Gabriel Periss

Interessante notar como as crianas se divertem com a brutalidade das histrias de Roald Dahl. Por exemplo: o livro Pestes (The Twits), cujo ttulo talvez fosse mais bem traduzido como Os Estpidos - com essa conotao bem brasileira de pessoas agressivas e insuportveis, pessoas que no possuem justamente a graa de uma criana - Pestes a histria, muito simples, de um casal de velhos horrorosos que vivem se maltratando impiedosamente e que odeiam crianas e animais. A forma com que Dahl conta a histria direta, sem medo de chocar (alis, sua vontade chocar com toda a naturalidade): "A barba do sr. Peste no era macia e penteada como a de outros homens barbudos. Era toda arrepiada e espetada, como as cerdas de uma escovinha de unha. E com que freqncia vocs acham que o sr. Peste lavava aquela cara de escovinha de unha espetada dele? A resposta NUNCA, nem mesmo aos domingos. Ele no lavava a cara h anos!"

As barbas sujas do sr. Peste fazem parte de uma tcnica pessoal de inventar personagens. Dahl no estava interessado em descrever pessoas normais, dizia ele, porque "pessoas normais no so nada interessantes". As pessoas interessantes so as que inventamos, exagerando sua maldade ou sua bondade. O que as caricaturiza exatamente o que as caracteriza e torna inesquecveis.

A sra. Peste tambm no era flor que se cheirasse, e muito menos bela poderia ser considerada. Ao contrrio, era fessima. E, descrevendo-a, o autor cria uma das explicaes mais singelas e geniais para a feira: "A sra. Peste no tinha nascido assim feia. Quando era moa, tinha at uma cara bonitinha. Mas a feira tinha aumentado medida que os anos passavam. [...] Se uma pessoa s tem pensamentos desagradveis, isso comea a aparecer na cara dela [...]. J uma pessoa que tem pensamentos agradveis nunca feia de verdade, mesmo que objetivamente tenha um rosto horrvel."

O casal dos Pestes pode ser visto, na verdade, como um casal de bruxos, um tipo de personagem fantstico que atrai as crianas tanto ou mais quanto as fadas e heris. Em seu The Witches (As Bruxas), Dahl uma vez mais deixa a narrativa fluir ao sabor da fantasia sem rodeios e sem rdeas. O narrador transformado em rato por uma bruxa. Ele e seu amigo Bruno, que conversam animadamente:

— Existem coisas piores do que ser rato — disse eu. — Como ratos, a gente pode at viver num buraco!
— No quero viver num buraco! — gritou Bruno.
— E a gente pode subir at a despensa toda noite — disse eu — para se regalar com pacotes de uva-passa, cornflakes, biscoitos de chocolate e tudo o que houver. Rato pode passar a noite inteira comendo, at se empanturrar.
— At que uma boa idia — disse Bruno, animando-se um pouco.

Em Matilda, livro que virou filme como outras obras de Dahl, tambm h uma bruxa. a diretora da escola, sra. Taurino (em ingls, Ms. Trunchbull), com um perfil policialesco que vai contrastar com a delicadeza da pequena Matilda: "A sra. Taurino [...] tinha sido uma atleta famosa no passado, e seus msculos ainda se mantinham claramente evidentes. Eles marcavam o pescoo forte, os ombros largos, os braos grossos, os pulsos rijos e as pernas vigorosas. Tinha-se a impresso de que ela era capaz de entortar barras de ferro e rasgar listas telefnicas." Matilda descobre que tem poderes mgicos, poderes que, embora o autor no estabelea essa ligao, possivelmente nasceram do seu precoce amor leitura. Ela aprendeu a ler sozinha com trs anos, e antes dos sete j havia lido Dickens, Jane Austen, Thomas Hardy, Kipling, Hemingway, John Steinbeck, Graham Greene e George Orwell.

James e o Pssego Gigante, que tambm foi para as telas do cinema, possui as suas bruxas: tia Esponja e tia Espiga, que ficaram encarregadas de cuidar de James Henry Trotter, depois que o pobre menino perdeu os dois pais, "devorados (em plena luz do dia, imaginem, e numa rua cheia de gente) por um imenso e feroz rinoceronte que tinha fugido do Jardim Zoolgico". As duas tias eram egostas e malvadas, e espancavam o menino por tudo e por nada, chamando-o de "criatura miservel" e "inseto imundo". Assim que pde, o menino fugiu e viveu experincias to malucas que o fato de viv-las acompanhado por um Minhoco e um Gafanhoto quase passa despercebido.

O sucesso literrio de Roald Dahl entre as crianas (mas muitos adultos o lem tambm) deve-se sua coragem estilstica de escrever o que lhe vinha sua imaginao, uma imaginao fantstica que sua av norueguesa ajudou a desenvolver contando-lhe muitas e muitas histrias. Curiosamente, porm, quando tinha quatorze anos, no era considerado um bom aluno nas aulas de redao. Seu professor escreveu num relatrio sobre o futuro escritor: "Nunca vi um rapaz com tantas dificuldades para expressar-se no papel. Ele escreve exatamente o contrrio do que tem em mente. Parece-me incapacitado para escrever textos lgicos e coerentes." No entanto, quem disse que os leitores procuramos textos lgicos e coerentes?


pensamentos despenteados para dias de vendaval
Copyright © 2001-2005 Nemo Nox. Todos os direitos reservados.