burburinho

o racismo explicado minha filha

livros por Gabriel Periss

Existe racismo no Brasil? Existe, mas muito atenuado, quase imperceptvel, perto do que ocorre em outros pases do mundo. Nossos racismos so mais de ordem econmica do que de ordem tnica. Ns, que estamos acostumados a ver nas ruas um imenso arco-ris de peles e uma infinidade de tipos de cabelo, mal conseguimos imaginar o que so as tenses racistas no sentido estrito da palavra. Contudo, muito bom estudarmos e educarmo-nos para enfrentar qualquer tipo de racismo que possa aparecer entre ns, e por isso vale a pena ler um livro de Ben Jellow, O racismo explicado minha filha, publicado pela Via Lettera Editora.

Ben Jellow marroquino e vive na Frana, e seu pequeno livro uma srie de perguntas e respostas entre ele e a filha sobre o que vem a ser o racismo e o absurdo que o racismo . Dentre os equvocos mentais que geram o racismo est a generalizao, pela qual justifica-se o dio ao indivduo. Ento, um racista pode rejeitar uma moa rabe porque no gosta dos rabes e tem srias desconfianas quanto ao Modo de Ser rabe.

virtualmente impossvel pensar sem generalizaes, mas importante aprender a relativizar essas generalizaes quando estas se tornam insensatas e, s vezes, perigosas. Podemos falar sobre a malandragem dos brasileiros e sobre a pontualidade dos ingleses, mas estar prontos para ver brasileiros "caxias" e ingleses impontuais.

O racismo uma generalizao perigosa. E pode contaminar as prprias vtimas de um racismo: "O fato de haver sofrido uma injustia no torna necessariamente algum justo. O mesmo acontece com o racismo. Um homem que foi vtima de racismo pode, em alguns casos, ceder tentao racista". Tentao que pode corromper fortes e fracos, o racismo algo que se "pega" no ar, nas conversas, nos meios de comunicao, at na escola, e por isso precisamos ensinar aos nossos filhos (e a ns mesmos!) os mecanismos psicolgicos do dio que podemos sentir de pessoas que no tenham as nossas caractersticas fsicas e culturais. Explicar uma forma de vacinar. O racismo pode entrar na vida de uma pessoa de modo sorrateiro, inoculado em frases que podemos usar inadvertidamente: os portugueses so burros, os japoneses so egostas, isso aqui "trabalho de negro", "aquele alemo nazista", "no negocio mais com judeu", etc.

Combater o racismo a partir de nossa prpria conscincia requer uma honestidade muito grande para detectar os primeiros focos de desprezo generalizante, por mais que tenhamos razes e fatos a nosso favor. Na base do racismo - e isso muito curioso - existe uma falta de sensibilidade para o belo. O dio racial um dio mistura das cores, mistura que todo pintor sabe que torna o quadro mais complexo e mais vivo. Uma sociedade que acolhe o estrangeiro e, com o tempo, v que homens e mulheres de culturas e caractersticas diferentes fundam famlias e geram filhos mestios deveria sentir orgulho de seu senso esttico. Mesclar tradies e genes uma arte. A arte da tolerncia e do amor.

O livro de Ben Jellow quer ser um livro simples e esclarecedor. Um pouco fora do nosso contexto, mas inspirador, na medida em que vale como paradigma para outros tipos de dios e preconceitos, como o preconceito etrio, por exemplo, ou o preconceito regionalista, ou at o preconceito profissional, pois h gente que despreza um mdico por ser mdico, ou um jornalista por ser jornalista. A palavra-chave j foi escrita: amor. "Muito freqentemente, o racista ama muito a si mesmo. Ele se ama tanto que no tem lugar para os outros."


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