burburinho

jos j. veiga

livros por Gabriel Periss

O goiano Jos Jacintho Pereira Veiga (1915-1999) dizia dever a escolha de seu nome literrio ajuda de Guimares Rosa que, com argumentos numerolgicos e estilsticos, sugeriu Jos J. Veiga, na altura da publicao do livro de estria Os Cavalinhos de Platiplanto, em 1959 — os cavalinhos coloridos e empinadinhos. Fazendo as contas: 59 –15 = 44. Com 44 anos de idade publicou seu primeiro livro, e os outros 40 anos de vida consolidaram uma carreira literria de mais de 15 ttulos.

Desde o comeo a linguagem de Jos J. Veiga mostrou-se enxuta e rica, sem exibicionismos, sem concesses, sem extravasamentos. Jos J. Veiga escreve com o alicate da ateno, com a chave de fenda da exigncia, com o martelo da persistncia. Escreve como um denodado carpinteiro. Para construir e conhecer. Conhecer aquilo mesmo que o levava a escrever. Conhecer o mundo, os objetos, as pessoas. Com toda a carga de estranheza que existe em tudo.

Linguagem nada empolada, escreve como a fala de algum contando histrias em roda de amigos. Narrador tradicional, sem a sofisticao dos ps-modernos, preocupados em mostrar que sabem semitica e outras delicadezas tecnicistas. Jos J. Veiga escreve com naturalidade, e o prprio ritmo dos seus textos marcado pela calma da vida e da fala interioranas. O "caboclo" (mas tradutor de Hemingway, e traduzir determinados autores influencia sem dvida o prprio estilo) vai, sem ansiedades e malabarismos estilsticos, preparando o cigarrinho de palha do seu ouvinte, contando com malcia oculta os mais bizarros feitos. Como quem no quer nada. Ou como quem, no fundo, quer tudo.

O "jeito" interiorano de Jos J. Veiga escrever — interiorano porque avesso grandiloqncia e ao estapafrdio — no abre mo, contudo, da universalidade. Ernesto Sbato disse, com muita sabedoria, que o mau escritor usa palavras altissonantes para no dizer nada, e o bom escritor usa palavras simples (mas exatas) para dizer coisas grandes. Jos J. Veiga trabalha com palavras corriqueiras, de fundo de quintal, de Gabinete Goiano de Leitura (onde, menino, conheceu Alusio de Azevedo e Victor Hugo), palavras descalas mas riqussimas de transcendncia. Um tom coloquial inteligente. Uma simplicidade complexa.

O antolgico O dia dos Bois, por exemplo, terceiro captulo de A Hora dos Ruminantes (romance publicado em 1966), a rigorosa e transparente construo de uma invaso silenciosa, inevitvel. Os bois vo aparecendo, "calmos, confiantes, indiferentes". Bois vadios que, sem alarde, ocupam toda a cidade de Manarairema, suas ruas, becos, terrenos e, sobretudo, a vida do povo. Um cidado distrado ia dobrar uma esquina com pressa e acabava caindo "de braos abertos nos chifres de um boi imprevisto".

A instalao de uma crise. Este o sentido da invaso bovina. Metfora do problema existencial que, na vida individual ou coletiva, chega e rouba espao sem pedir licena. Os bois atravancam tudo, impedem que as pessoas saiam de casa. Sensao de derrota total: "os bois l fincados, teimosos, definitivos, como h dias, h meses, h anos, talvez h sculos, sufocando a cidade, separando amigos, fazendo as pessoas esquecerem a cor do cho, os acidentes do terreno, confundirem as distncias e os caminhos e imaginarem como seria uma cidade s de gente, sem o constrangimento de tanto boi."

O problema inesperado no tem soluo. Como tantos outros problemas sem remdio. Como os estbulos de Augias, que s Hrcules pde limpar, desviando o leito do rio Alfeu. Mas nem todo mundo semideus. Vamos ficar aqui — parece dizer-nos o autor —, ruminando nosso problema, que, no tendo remdio, remediado est. Sabedoria. Sugestes h, das mais absurdas, como a de matar os bois envenenando a gua que bebem ou o capim que comem. Mas a ponderao avisa: como se desfazer depois de tantos cadveres? Os bois insistem. Esto no cemitrio, dentro da represa, nas estradas, at dentro da igreja, derrubando os castiais e mascando as toalhas sagradas.

Mas... quando tudo parecia perdido... Mas... de repente, quando a resignao era a nica conquista, somem "os berros, os bufos, o socar de lama, o chacoalhar de chifres". Some o peso da presena angustiante. Os bois foram embora. Desocuparam tudo. Graas a Deus. O mundo voltava a seus eixos. Os manarairenses mal acreditam no que vem e no que no vem mais. A cidade reaparece. O bugre olha pela janela e suspira de alvio.

E o autor encerra seu livro com palavras mansas: "O relgio da igreja rangeu as engrenagens, bateu horas, lerdo, desregulado. J estavam erguendo o peso, acertando os ponteiros. As horas voltavam, todas elas, as boas, as ms, como deve ser."


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