burburinho

cassiano ricardo

livros por Gabriel Periss

A competio entre os mortos mais terrvel do que a competio entre os vivos", escreveu Fernando Pessoa. E no s por serem mais numerosos do que os vivos. Os mortos tornam-se mais vidos de carinho, de admirao, de dilogo. Nessa competio, muitos escritores e poetas que antes, entre ns, ocupavam os primeiros lugares, amargam agora o esquecimento e s vezes desaparecem para sempre no silncio empoeirado das estantes. Por isto, cabe aos leitores e crticos recordar os ttulos de seus preferidos, transcrever os melhores trechos, citar-lhes os nomes em conversas e artigos.

Por exemplo: Cassiano Ricardo (1895-1974). Membro da Academia Brasileira de Letras, com mais de cinqenta livros publicados (poesia e teoria literria), anda bastante desaparecido no mundo das livrarias e das pesquisas acadmicas. Sorte sua que a cidade onde nasceu (So Jos dos Campos) presta-lhe verdadeiro culto. L foi criada a Fundao Cultural Cassiano Ricardo e no so poucos os parentes e os so-joseenses preocupados em difundir sua obra. Obra cuja caracterstica principal est no lema que o prprio autor criou na dcada de vinte: "Originalidade ou morte". Dos seus primeiros livros, Dentro da Noite (1915) e A Frauta de P (1917), at os ltimos, Jeremias Sem-Chorar (1964) e Os Sobreviventes (1971), Cassiano abriu e experimentou diferentes caminhos poticos, "picado pelo demnio da curiosidade", como lhe dizia Manuel Bandeira.

O parnasianismo, o simbolismo, o modernismo, o neo-romantismo, o concretismo foram, nas mos do poeta, instrumentos conceituais para a fabricao dos seus poemas. O fato mesmo de ter sido companheiro de idias estticas de Menotti Del Picchia, no incio do sculo, e depois de Augusto de Campos e Mrio Chamie, na dcada de 60, demonstra sua permanente flexibilidade, guiada, no entanto, pelo inflexvel desejo de morder o corao do leitor.

Martim Cerer (1928) o mais conhecido dos seus livros. Trata-se de um longo poema indianista e nacionalista, uma cosmogonia brasileira em que o ndio, o negro e o branco tomam posse e inventam um novo pas. O crtico Wilson Martins chega a afirmar que este poema fora escrito com um sculo de atraso, um poema que estava no destino dos romnticos escrev-lo, mas que tambm estava no destino dos modernistas escrev-lo, e que, afinal, era a verso potica do Macunama. Me-Preta, trecho de Martim Cerer, demonstra bem o tom ao mesmo tempo pico e lrico que predomina na obra:

"Quem que est fazendo este rumor?

As folhas do canavial
cortam como navalhas;
por isso ao passar por elas
o vento grita de dor...

(O cu negro quebrou a lua atrs do morro.)
'Druma ioiozinho
que a cuca j i vem;
papai foi na roa
mami foi tamm.'"

Em 1950, lana Poemas murais, que assumem a linguagem tpica da poca imediatamente posterior Segunda Guerra - o tom combativo torna-se mais reflexivo, mais introspectivo, como no poema O tocador de clarineta:

"Quando ouvires o pssaro
Cantar em frente do teu quarto,
Naturalmente em vo,
no penses
que sou eu que a vim tocar,
no.

Quando o vento disser,
ao teu ouvido de mulher
uma palavra
branca e fria como a cerrao,
no penses que o vento fui eu,
no.

Quando receberes
uma carta annima, trazida
por secreta mo
- quem ser que assim me acusa? -
eu que no serei,
no.

Quando ouvires, porm, no escuro,
a goteira caindo
sobre o triste cho, a, ento,
serei eu que estou batendo
na pedra
do teu corao."

J na casa dos sessenta anos, Cassiano ingressou na fase mais ousada de seu trabalho potico, publicando poemas que renem preocupaes formais e humansticas. Sua contundente crtica ao concretismo era a de que os poetas desse movimento corriam o risco de se prenderem ao fascnio dos achados verbais, brilhantes, engenhosos, desconectados, porm, da angstia do homem moderno, sentida e tematizada pelas vozes mais ouvidas nas dcadas de cinqenta e sessenta: Sartre, Joo XXIII, Heidegger, Marcuse, Erich Fromm, Hermann Hesse, entre outras.

Assim, ao mesmo tempo que empolgado pelas novas possibilidades da poesia - no s as j conhecidas possibilidades da poesia de verso livre, mas as de uma poesia livre do prprio verso -, Cassiano enfatizou a emoo e o conseqente envolvimento do poeta com as questes existenciais mais prementes. Envolvimento filosfico e esttico com uma poca planetria, em que os meios de comunicao nos fazem dar a volta ao mundo mais rapidamente do que Julio Verne poderia imaginar.

O poema Rotao, de Jeremias Sem-Chorar, expresso desse tempo em que o mundo tornou-se uma esfera entre outras num universo que o ser humano deseja explorar. No planeta Terra, antigo "vale de lgrimas", o homem no chora mais, desde que perdeu a viso por causa do coice de um cavalo no comcio, e desde que perdeu a noo da gravidade graas s experincias dos primeiros astronautas. Sem lamentaes estreis, preciso reaprender a esperana:

"a esfera
em torno de si mesma
me ensina a espera
a espera me ensina
     a esperana
a esperana me ensina
uma nova espera a nova
espera me ensina
de novo a esperana
     na esfera

a esfera
em torno de si mesma
me ensina a espera
a espera me ensina
     a esperana
a esperana me ensina
uma nova espera a nova
espera me ensina
uma nova esperana
     na esfera

a esfera
em torno de si mesma
me ensina a espera
a espera me ensina
     a esperana
a esperana me ensina
uma nova espera a nova
espera me ensina
uma nova esperana
     na esfera"

Se a "pedra no meio do caminho" de Drummond encarnava em tom montono a perplexidade do homem em suas andanas sem rumo, o neo-Jeremias, ciente da monotonia da rotao igual, das demoras, dos males repetitivos da existncia humana, contempla essa pedra-planeta que roda sem parar, extraindo da obrigatria espera uma nova esperana.

Nos ltimos dez anos de vida, Cassiano desenvolveu e ps em prtica o conceito de linossigno, contribuio original para o pensamento potico ps-concretista. Os Sobreviventes, escrito no fim da dcada de sessenta e no incio da de setenta, o livro em que sintetiza conscincia humanista e coragem estilstica. Por um lado, a conscincia humanista v a populao dos sobreviventes, esse "Grande Ningum", os deserdados, os subnutridos, os subvivos, todos aqueles que vivem no subsolo e lutam para (viver seria um luxo) sobreviver. sobrevivente quem se espanta pelo fato de acordar e ainda estar vivo. Na espera ativa de que os sobreviventes sejam viventes de pleno direito, o poeta (e aqui entra a coragem estilstica) desversifica a poesia, utilizando essa nova unidade compositiva, o linossigno, linha de palavras que no obedecem mais s regras da versificao. O linossigno um "desenho" significativo, so as palavras dispostas na pgina sem o compromisso linear da frase ou do verso. O linossigno estabelece um ritmo grfico, visual, quase cinematogrfico.

O linossigno, explicava Cassiano Ricardo em seus ensaios e palestras, foi o neologismo que precisou criar para que entendssemos o que ficou no lugar do verso, pelo menos de acordo com uma explcita concepo visual-cintica do poema. O linossigno, dizia ainda Cassiano, era um elemento to diverso que chegava a ser o reverso do verso, um outro universo, mais condizente com o modo de olhar e ver do homem contemporneo, ou de um novo homem que nascia. E, acrescentaramos, com o modo de ler prprio dos internautas, que mais "scannear", explorar, ver em conjunto, do que escandir, soletrar, linha a linha, verso a verso. O poema Fotomontagem expressa, exemplifica e de algum modo coroa o esforo criativo de um poeta que era poeta sem parar, e cuja obra, verbalmente revolucionria, inspira um remontar as coisas:


pensamentos despenteados para dias de vendaval
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