burburinho

hitler e as copas que a argentina no ganhou

miscelnea por Idelber Avelar

O torcedor fantico por futebol no vive nem no presente, nem no passado, nem no futuro. O tempo verbal do apaixonado pela bola , por definio, o mais-que-perfeito do subjuntivo. Que diacho isso? o famoso "se no tivesse tido". Se no tivesse chovido, se o juiz no tivesse roubado, se fulano no tivesse se contundido, se no tivssemos perdido o pnalti. No h torcedor que, ante a derrota de seu time, no recorra aos encantos do mais que perfeito. Um exemplo clssico tem como protagonista o tcnico Evaristo de Macedo. Ao ver seu Flamengo massacrado pela Ponte Preta por 3 x 1, Evaristo recorre prola: "se eles no tivessem feito dois gols no comeo, o jogo teria terminado 1 x 1".

Pois bem, conta a lenda que o grande Friedenreich, nosso primeiro grande gnio da bola, aquele que marcou, nas dcadas de dez, vinte e trinta, mais gols que Pel, viu o Brasil retornar da Sucia em 1958 com seu primeiro caneco. Contemplando a festa, comentou, inconsolvel: "Se cariocas e paulistas no tivessem brigado em 1930 (briga que nos fez levar uma seleo carioca Copa do Uruguai, sem Fried), agora seramos bicampees." Fried nem se preocupou em falar da copa de 1950. Para ele o que importava era a Copa do Uruguai, onde no teria tido para ningum caso ele estivesse no time, junto com outros paulistas, como o goleirao Athi e o endiabrado Feitio. Em 1930 o mais que perfeito do subjuntivo entrou na vida de nosso futebol para nunca mais sair.

Mas das copas que no ganhamos falarei em outra oportunidade. Hoje quero falar do namoro traumtico dos argentinos com o mais que perfeito. Na Copa de 1966, aquela em que se Vicente Feola no tivesse convocado 44 jogadores talvez tivssemos tido chance, a Argentina tinha um timao. Deu o azar de que aquela Copa parecia arranjada desde o comeo para os ingleses, que amargavam a vergonha de ter inventado o futebol e nunca ter ganho nada importante no esporte. No jogo decisivo de quartas-de final contra a Inglaterra, a arbitragem tendenciosa expulsou o capito argentino Rattn, que inutilmente esbravejava que no havia insultado o rbitro e que precisava de um intrprete. De nada adiantou. O prmio de consolao de Rattn foi amassar a bandeira inglesa pendurada no pau do escanteio e ver a FIFA implantar os cartes amarelos para prevenir futuros mal-entendidos.

Todos sabem a carne-de-pescoo que jogar contra a Argentina. So 34 vitrias de Brasil, contra 33 da Argentina na histria dos confrontos (isto nas contas da Confederao Brasileira de Futebol, enquanto a Associao de Futebol Argentino diz que a seleo argentina est frente com 36 vitrias e 33 derrotas). O que pouca gente sabe que s nos ltimos trinta anos, depois da era Pel portanto, o Brasil tirou uma diferena enorme que havia em favor dos argentinos. Na dcada de trinta foram nove jogos, com duas vitrias nossas e seis deles, incluindo-se a um humilhante 5 x 1 em pleno Rio de Janeiro, pela Copa Rocca de 1939. Na dcada de quarenta mais seis jogos, com quatro vitrias deles e duas nossas. Assim por diante at a dcada de sessenta, auge do nosso futebol, quando conseguimos trs vitrias contra quatro derrotas. Em 114 jogos com a camisa da seleo brasileira, Pel s perdeu doze jogos. Desses doze, nada menos que quatro foram contra os argentinos.

A dcada que gera, entre os argentinos, uma fileira de pretritos-mais-que-perfeitos a de quarenta. No h discusso: o futebol argentino naquela dcada era o melhor do mundo, disparado. Mas, para desespero dos alvi-celestes, no houve Copa nos anos quarenta, por causa da guerra. Se no houvesse havido guerra, a Argentina provavelmente teria levantado os canecos de 42 e 46. Na Copa de 1950, h quem jure que nem o Uruguai dos fatdicos Ghiggia, Schiaffino e Obdulio Varela, nem o Brasil de Zizinho e Ademir teriam sido preo para a Argentina de Di Stfano, Pedernera e Loustau. Olhando o restrospecto da dcada de quarenta, difcil discordar. Mas o todo-poderoso Pern no permitiu que seu pas viesse Copa organizada pela Confederao Brasileira de Desportos, com a qual a Associao de Futebol Argentino se encontrava rompida desde um jogo-pancadaria realizado em Buenos Aires em 1946.

A Segunda Guerra, como se sabe, foi provocada pelo delrio blico-racista de Hitler, que vislumbrava uma Europa ariana controlada pela Alemanha. O que pouca gente sabe que no comeo da dcada de dez, antes de escrever Minha Luta, Hitler perambulou por Viena, na ustria, onde desesperadamente tentou interessar o professor de uma escola de arte nos quadros que pintava. Depois de fracassar vrias vezes como pintor, Hitler passa a tecer o pesadelo que tomaria forma em 1933, com a ascenso do Nacional-Socialismo ao poder. Est a ento, leitor, o mais-que-perfeito do subjuntivo levado ao absurdo com a paixo portenha pelo futebol: se os professores de arte austracos do comeo do sculo passado tivessem sido um pouco mais tolerantes com os medocres candidatos a pintores da poca, o primeiro tricampeo do mundo de futebol teria sido a Argentina, e no o Brasil. Talvez hoje a Jules Rimet descansasse em Buenos Aires, e o lugar de honra que cabe, na histria, a Carlos Alberto Torres, teria sido ocupado por um gnio de cabelos encaracolados e nome Adolfo Alfredo Pedernera, maestro da mquina do River Plate dos anos quarenta. Mas como os vitoriosos no se preocupam muito com o subjuntivo, e sim com o passado simples, os brasileiros damos de ombros e retrucamos: o choro livre.


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