burburinho

duchamp e picasso, dois ranhetas e o futuro

miscelnea por Luiz Paulo Baravelli

Era uma vez um rapaz chamado Marcel Duchamp. Ele era bacana e transado e morava em Paris e conhecia todo mundo. O pai dele, a me dele, os irmos dele tambm conheciam todo mundo. Era no comeo do sculo e o pessoal andava maluco fazendo mil experincias. A ele teve uma idia (ele teve outras idias depois); pensou l com os botes de madreprola dele: pra que serve o museu? Pra expor arte. O que arte? Umas coisas que todo mundo acha que arte. Quem "todo mundo"? Sei l, a burguesia informada. Quem sustenta os museus, galerias, etc? A mesma burguesia informada. O que veio antes, a arte ou o museu? A arte veio um tico antes. Ento a turma acha que o que arte vai pro museu, no? . E se eu fizer uma molecagem e inverter a histria? J vi isso uma poro de vezes nas comdias: o cara bota a roupa do rei e todo mundo acha que ele rei e a ele vai e faz a maior trapalhada, d umas ordens bem gozadas, fica uma bruta confuso. Eu t meio toa aqui e vou aprontar uma parecida. Eu conveno o diretor do museu ou o dono da galeria a expor uma coisa qualquer como arte e quem sabe gruda e o pessoal vai achar que arte? Vou dar um roque nesse jogo (ele gostava de jogar xadrez).

Ento ele fez o seguinte: arranjou um banquinho comum e parafusou no assento uma roda de bicicleta com garfo e tudo, de jeito que ela pudesse girar. Tem a foto disso a em cima. Ele exps a coisa l (como conseguiu que o diretor deixasse nunca ningum soube) e os bacanas (ele conhecia todo mundo, lembra?) foram l ver e acharam revolucionrio e pronto, estava feita uma revoluo. Artstica, bem entendido. claro que se ele tivesse feito isso na Martinica, Singapura, Rio de Janeiro, qualquer cidade dessas bem Terceiro Mundo, tinham dado uns pescoes nele e mandado parar com isso e ir trabalhar em vez de de ficar inventando besteira. Como ele era bacana em Paris, tudo bem, foi revolucionrio. Isso foi l por 1913, quando o av da gente era pequenininho. Ele fez outras coisas depois mas ficou valendo a gracinha.

Que para fazer a gracinha ele tenha diminudo a base de deciso (que j era pequena) para uma pessoa s (se o diretor quiser a coisa vira arte, se no, no) qualifica a revoluo dele de reacionria, proto-fascista, sei l. Todo poder burocracia constituda, uma cavernosa dessas.

Bom, um tempo depois, a peste do Picasso (ele tambm era bacana em Paris) resolve dar uma revolucionada na revoluo do outro. L por 1943 ele fez o seguinte: pegou um selim de bicicleta e um guido, grudou um no outro e ficou parecido com uma cabea de touro, verso africana. Tem a foto ai tambm. Pendurou na parede e virou escultura; at aqui tudo mais ou menos normal, com a diferena que ele usou os outros pedaos da bicicleta (pedaos que no so "tcnicos" como a roda mas "humanos" - coisas que se ligam ao corpo de quem usa) e fez uma obra de arte com o mesmo tema e at parecida com as obras de arte mais antigas que existem: as pinturas de bises nas cavernas. Como se ele dissesse: escuta aqui, no adianta virar a coisa de trs para diante, porque eu inverto tua inverso e revoluciono tua revoluo, a gente volta pra caverna e precisa comear tudo de novo.

A, no contente com a maldade, ainda acrescentou uma frase: "Um dia eu peguei o selim e o guido, coloquei um sobre o outro e fiz uma cabea de touro. Tudo bem. Mas o que eu deveria ter feito era jogado fora aquela cabea de touro. Jogar na rua, no rio, em qualquer lugar, mas jogar fora. Ento um trabalhador passaria por l, apanharia a pea e iria descobrir que com ela poderia fazer um selim e um guido. E ele faria... isso seria magnfico. Este o dom da metamorfose."

Como se ensinasse pro Marcelzinho: olha, existe a arte e existe a vida. Elas se relacionam mas no so a mesma coisa. Pegar uma coisa direto da vida real e colocar no museu torna isso arte, num determinado instante, por um breve perodo, mas uma atitude instvel bea e qualquer coisa desmonta tudo. OK, voc pegou um pedao da vida e "artistizou" ela botando no museu, mas estou dando um passo a mais: pego essa mesma coisa, revelo pros outros a possibilidade esttica que ela tem e em seguida ela volta para o fluxo da vida. Do real pro simblico, do simblico pro real.

Eles fazem as revolues deles l e a gente fica assistindo que nem uns bobos. Mas no isso o que eu queria dizer. Muito tempo depois outro artista, Philip Guston, disse uma coisa que me impressionou; mais ou menos assim: "Antes de comear um quadro novo fico um tempo pensando que o mundo j est to cheio de coisas, de todo o tipo de tranqueira, que talvez no precise de mais esta, uma coisa frgil como um beb. S comeo o trabalho se me conveno que vale a pena gastar mais um cupom da minha rao de entulhao do mundo."

Uma vez fiquei fazendo uma brincadeira de contar quantos artistas haveria no mundo e eu mesmo fiquei assustado. H um monte e se a gente continuar fazendo, fazendo vai estourar as costuras. J tem tanto que no d para ter idia do conjunto: daqui a pouco simplesmente no vai caber. Voc caprichar na sua arte para que ela dure e os seus herdeiros tocarem fogo para desentupir a garagem triste; talvez o baixinho tenha sacado uma boa: quem sabe a arte do futuro seja s um arranjo do que j existe e depois desmancha pra desocupar lugar? Talvez guardar s um registro num computador. Mas a o problema quem vai ver depois. Quem no futuro vai ter saco de ver os registros de milhes de artistas e bilhes de obras? Algum vai querer? Eu no, t louco, prefiro ir tomar uma cerveja.


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