burburinho

tiharea

msica por Luis Gustavo Claumann

Madagascar uma ilha no ndico em frente a Moambique, com 1.600 km de comprimento, geograficamente muito contrastada. Percorrendo-a de ponta a ponta encontram-se desde densas florestas at desertos onde apenas os cactos ousam crescer, passando por montanhas que quase chegam aos cus e praias ornamentadas por palmeiras. Terra de costumes exticos, como o Famadihana, festival em que se cultua o animismo tribal tradicional (Razana), quando o povo malgaxe retira seus ancestrais e mortos queridos das sepulturas para dar uma arejada e bater o p dos trapos que os envolvem. Desta mesma ilha tambm vem o som do trio Tiharea, formado pelas irms Talike, Vicky e Delake, que cantam juntas desde crianas.

Nascidas no sul de Madagascar, em Ifotake, cresceram com a msica sua volta. Todas as noites o pai pegava no acordeo e a me, rodeada dos seus nove filhos, cantava as canes que aprendera ainda menina. Mais tarde, j adolescentes, as trs irms fizeram parte de um coral que atuava nas cerimnias religiosas e sociais de Ifotake. Em 1985, foram as vencedoras do festival de msica de Fort Dauphin. Depois disto, suas vidas tomaram rumos diferentes, para se reencontrarem anos mais tarde, casualmente, na Europa. Foi ento que decidiram juntar-se de novo, desta vez como Tiharea, que na lngua local significa riqueza, para comear uma carreira profissional internacional.

As canes do trio so cantadas em antandroy, uma lngua do sul de Madagascar, cujo povo conhecido pela qualidade excepcional das suas vozes e tcnicas de canto, destacando-se o rimotsy, normalmente executado apenas pelos homens, mas que as irms Tiharea tambm praticam, cantando de tal forma que s vezes parece que estamos ouvindo seis ou sete vozes e no apenas trs. O estilo de canto de garganta aberta confere s vozes uma qualidade selvagem em simultneo com uma intimidade e uma suavidade que lembra o canto folclrico das mulheres blgaras. Porm quando as irms comeam com a percusso usando o langoro (um tambor) e o katsa (lata cheia de pedras, usada como instrumento de percusso), alm das prprias mos para um complexo bater de palmas, a se transformam num grupo de cantoras percussionistas e ento percebemos que estamos realmente ouvindo um som de razes africanas.

As canes falam de temas locais, desde a circunciso como smbolo de virilidade e de poder, do casamento forado de uma jovem, da saudade da terra natal, da ringa (um combate entre dois homens que acontece na lua cheia, quando o canto das mulheres katrehake serve de incitamento luta, tendo no final o vencedor direito a escolher uma delas para passar a noite consigo) e ainda da beleza e crueldade da vida e da sabedoria em saber viv-la.


pensamentos despenteados para dias de vendaval
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