burburinho

monteiro lobato - parte 3

livros por Gian Danton

Em 1917 Lobato vende a fazenda e se muda para So Paulo. Resolve investir o dinheiro na compra da Revista do Brasil e decide publicar um livro. Deveria chamar-se Dez Mortes Trgicas. Revoltado com a gua morna dos escritores da poca, incapazes de matar sequer uma mosca, ele escrevia contos de arrepiar os cabelos. Matava em monjolo, lameiro e em tantos outros lugares quanto fosse possvel dar cabo vida de um indivduo. No fim, Lobato acabou mudando o ttulo por sugesto de Artur Neiva, que achou melhor Urups, ttulo de uma artigo que servia de apndice ao volume.

O recm-batizado Urups foi para a seo de obras do Estado de So Paulo com a recomendao de que no se fizesse mais de mil exemplares. Lobato desacreditava completamente da possibilidades mercadolgicas do livro. Para espanto seu, Urups foi um sucesso. A primeira edio esgotou-se rapidamente e o livro chegou a ser assunto de discurso de Rui Barbosa, o grande figuro da poca.

Entusiasmado com o sucesso, Lobato publicou outros livros com material de colaboraes suas para jornais. Algumas recentes, outras dos tempos do Minarete. Surgiram Cidades Mortas, Idias de Jeca Tatu, Negrinha e outros.

Mas persistia um velho problema: no Brasil s havia quarenta livrarias! Para driblar o problema, Lobato resolveu fazer uma experincia indita no pas. Pediu ao correio uma lista de todos os estabelecimentos confiveis de que tinham conhecimento. No final conseguiu uma lista de 1200 casas comerciais relativamente srias, de farmcias a aougues. Mandou para elas uma circular engraadssima, que viria a ser a pedra fundamental da indstria editorial nacional: "Vossa senhoria tem o seu negcio montado e quanto mais coisas vender maior ser o lucro. Quer vender tambm uma coisa chamada 'livro'?".

Todos toparam o negcio e os livros de Monteiro Lobato passaram a ser encontrados em todos os locais do Brasil. Com isso as edies, que eram de quatrocentos ou quinhentos exemplares em mdia, pularam para trs mil. Entusiasmado, Lobato chegou a tirar uma edio de 50.500 exemplares de Narizinho Arrebitado, o primeiro livro do Stio do Pica-Pau Amarelo. Era um marco, mas era tambm uma loucura. Quem iria comprar tanto livro? Lobato deu uma sorte dos diabos. A edio esgotou-se em nove meses. S o governo de So Paulo comprou trinta mil narizes.

A coisa aconteceu deste modo: certa vez o presidente de So Paulo saiu a visitar as escolas junto com o Secretrio de Educao. Em todas as escolas que entrava, sempre encontrava um livrinho amarrotado, cheio de orelhas de burro, j muito surrado pelo manuseio. Era justamente o Narizinho Arrebitado. Lobato havia mandando quinhentos exemplares para as escolas e, como a coisa era novidade, a crianada caiu de dentes. A pedido do presidente, o Secretrio de Educao ligou para Lobato e perguntou quantos exemplares do livro poderia vender ao governo. "Uma pergunta assim, queima-roupa a um editor que est atrapalhado com a maior avalanche nasal de sua vida coisa de estontear. Pisquei sete vezes e respondi: Quantos quiser, Alarico. Temos narizes a dar com o pau. Posso fornecer cinco mil, dez mil, vinte, trinta mil...", contou Lobato, muitos anos depois. O secretrio achou que fosse patota e, s por brincadeira, encomendou trinta mil. No dia seguinte l estavam os trinta mil narizes no almoxarifado do secretrio, para espanto de todos.

Lobato foi o homem das revolues. O arranco que deu na indstria livreira nacional foi uma delas. As outras foram a luta pelo petrleo e a literatura infantil. Antes dele no existia a literatura como atividade comercial. Escrevia-se para entrar na Academia, para se tornar imortal. Para isso, escrevia-se numa linguagem empolada que tinha como objetivo no agradar ao leitor, mas fazer gnero. O criador do Stio odiava isso. "A desgraa da maior parte dos livros o excesso de literatura." Com isso ele se referia terrvel mania de escrever carro de Apolo, ao invs de Sol.

esse um dos traos mais modernistas de Lobato. Ele tambm abre caminho para o modernismo ao romper com a literatura aucarada, comum no Brasil do incio do sculo. Uma literatura para moas, na qual no cabiam cenas mais fortes. Era um eterno pisar em ovos para no afetar a sensibilidade do leitor. por horror a isso que Urups tem tantas mortes.

noite, quando todos os literatos se reuniam nos sales elegantes para conversar sobre os sonetos de Olavo Bilac, Lobato encontrava-se com os amigos no Caf Guarani para tomar um chope. Nenhum deles sabia que o companheiro de copo era escritor. Certa vez um deles pergunto-lhe: " verdade, Lobato, que voc tem um livro? Ouvi dizer." O escritor gargalhou: "Se eu tivesse um livro, Gama, punha-o num sebo. No tolero livros, nem gente que escreve livros."

Mas, apesar dessa horror literatura oficial, Lobato ia se firmando no gosto popular e se tornando um dos escritores mais conhecidos do Brasil. O que fosse lanado com seu nome vendia. Sem tempo, ele era obrigado a lanar mo de coisas antigas, do tempo do minarete e do promotorado em Areias. De novo mesmo, s os infantis: Narizinho Arrebitado, O Saci...

Por esses tempos a convivncia com as gentes da cidade haviam-no convencido que o melhor que tnhamos no Brasil era mesmo o tal do Jeca Tatu que ele tanto desancara em Urups. Se o Jeca no produzia, era porque no tinha segurana (podia ser expulso da terra a qualquer momento) e porque tinha a barriga repleta de vermes. As condies de higiene no campo eram precrias e o local se tornava prprio para o alastramento de doenas.

Lobato escreveu vrios artigos para O Estado de So Paulo, chamando ateno para o problema. Atacou at pelos quadrinhos. At h alguns anos era distribudo nas casinhas do interior o Almanaque Fontoura, com a histria em quadrinhos do Jeca Tatuzinho. A HQ, baseada num texto de Lobato, orientava os caboclos para usar sapato e tomar medidas bsicas de higiene, como lavar as mos aps defecar. Resultado: o pblico passou a pensar que Lobato era um mdico sabidssimo. Tanto que, certa noite, s altas horas, telefonaram para sua casa:

- o doutor Monteiro Lobato?
- Sim.
- Doutor, minha mulher est sentido dores. Poder vir atend-la?

Lobato teve de explicar que no era mdico...


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