burburinho

a msica e a poltica de cada poca

msica por Gian Danton

Existem certas msicas que, mais do que qualquer tratado acadmico, representam e analisam uma determinada poca. Abaixo apresento algumas canes que marcaram geraes.

Final dos anos 60

Nessa poca, embora se vivesse a ditadura militar, achava-se que os militares voltariam para os quartis se houvesse presso social nesse sentido. Era um tempo de sonho, de achar que o mundo poderia ser mudado e que o povo unido venceria. Nenhuma cano marcou tanto essa poca de esperana e crtica social quanto Pra no dizer que no falei de flores, de Geraldo Vandr.

Caminhando e cantando e seguindo a cano
Somos todos iguais braos dados ou no
Nas escolas nas ruas, campos, construes
Caminhando e cantando e seguindo a cano

Vem, vamos embora, que esperar no saber
Quem sabe faz a hora, no espera acontecer

Pelos campos h fome em grandes plantaes
Pelas ruas marchando indecisos cordes
Ainda fazem da flor seu mais forte refro
E acreditam nas flores vencendo o canho

H soldados armados, amados ou no
Quase todos perdidos de armas na mo
Nos quartis lhes ensinam uma antiga lio
De morrer pela ptria e viver sem razo

Vem, vamos embora, que esperar no saber
Quem sabe faz a hora, no espera acontecer

Dcada de 70

A histria mostrou que os soldados no estavam to perdidos assim, tanto que arranjaram um jeito de continuar no poder. Todos sabem o restante do enredo: o AI5 fechou o Congresso, cassou polticos e eliminou os direitos civis. Uma parte da esquerda que acreditava que caminhando e cantando e seguindo a cano conseguiriam mudar a sociedade chegou concluso de que as coisas s mudariam atravs das armas. Comearam as guerrilhas urbanas e rurais, ambas rapidamente sufocadas pelo regime militar. Sem ter o que fazer, os carrascos voltaram sua ateno para qualquer um que discordasse do regime. A tortura chegou aos intelectuais e artistas. A morte do jornalista Herzog sintomtica desse perodo. Criou-se uma era de terror, em que qualquer um podia ser a prxima vtima dos militares. No final dos anos setenta, embora j houvesse indcios de que a democracia voltaria (inclusive com o governo dos EUA pressionando nesse sentido), ainda havia o medo. A msica Cartomante, de Ivan Lins e Victor Martins (mas que ficou famosa na voz de Elis Regina) a melhor representao desse perodo.

Nos dias de hoje bom que se proteja
Oferea a face pra quem quer que seja
Nos dias de hoje esteja tranqilo
Haja o que houver pense nos seus filhos
No ande nos bares, esquea os amigos
No pare nas praas, no corra perigo
No fale do medo que temos da vida
No ponha o dedo na nossa ferida
Nos dias de hoje no lhes d motivo
Porque na verdade eu te quero vivo
Tenha pacincia, Deus est contigo
Deus est conosco at o pescoo
J est escrito, j est previsto
Por todas as videntes, pelas cartomantes
T tudo nas cartas, em todas as estrelas
No jogo dos bzios e nas profecias
Cai o rei de Espadas
Cai o rei de Ouros
Cai o rei de Paus

Anos 80

J estava escrito. O rei ia cair. No s um, mas todos, o rei de espadas, de ouros e o rei de paus. Era algo inevitvel, destino. O incio dos anos oitenta trouxe consigo o incio da democracia, mas tambm trouxe uma gerao que tinha crescido sob a sombra da ditadura (que na poca era chamada de revoluo) e que tinha perdido o vnculo com a gerao poltica do passado. As revelaes sobre as atrocidades nos pases comunistas, aliadas situao de terror interna, criou uma gerao que no sabia o que queria, mas sabia o que no queria. Era a Gerao Coca-Cola, eternizada na msica da banda Legio Urbana.

Quando nascemos fomos programados
A receber o que vocs nos empurraram
Com os enlatados dos USA, de 9 s 6.

Desde pequenos ns comemos lixo
Comercial e industrial
Mas agora chegou nossa vez
Vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocs.

Somos os filhos da revoluo
Somos burgueses sem religio
Somos o futuro da nao
Gerao Coca-Cola.

Depois de vinte anos na escola
No difcil aprender
Todas as manhas do seu jogo sujo
No assim que tem que ser

Vamos fazer nosso dever de casa
E a ento, vocs vo ver
Suas crianas derrubando reis
Fazer comdia no cinema com as suas leis.

Depois de vinte anos na escola
No difcil aprender
Todas as manhas do seu jogo sujo
No assim que tem que ser

Vamos fazer nosso dever de casa
E a ento, vocs vo ver
Suas crianas derrubando reis
Fazer comdia no cinema com as suas leis.

Como diz a msica, esses jovens se sentiam derrubando reis, os mesmos reis que, na cano anterior, iriam cair por fora do destino e das cartomantes. Era uma gerao criada sob influncia dos enlatados, mas que queria cuspir de volta esse lixo em cima dos que mandavam. Era tambm uma gerao que pela primeira vez convivia com a liberdade e que queria aproveit-la dizendo o que desejava sem meias palavras. Embora no fosse uma gerao comprometida com uma ideologia especfica, era poltica num sentido de revolta contra as injustias.

Anos 90

Veio Sarney, angariou o entusiasmo e depois a decepo do povo e, ento, o Collor. E, com ele, uma grave crise social. Nessa poca, quase todas as pessoas que eu conhecia estavam desempregadas. Muitas empresas fecharam suas portas. Na rea de quadrinhos, praticamente todas as editoras encerraram suas atividades e s sobrou o mercado ertico. At Maurcio de Souza teve dificuldades para continuar no mercado (tanto que as tirinhas da Mnica celebraram a queda de Collor). Na poca, mesmo pessoas que tinham emprego fixo ficaram subitamente desempregadas, por conta das privatizaes. A msica Teatro dos Vampiros, novamente do grupo Legio Urbana, o melhor smbolo desse perodo negro. Como dizia a msica, os bandidos estavam soltos, o povo no. E todo mundo sentia como se tivesse voltado aos tempos da ditadura, retrocedendo pelo menos dez anos no tempo.

E nestes dias to estranhos
Fica poeira se escondendo pelos cantos
Este o nosso mundo: o que demais nunca o bastante
E a primeira vez sempre a ltima chance.
Ningum v onde chegamos:
Os assassinos esto livres, ns no estamos
Vamos sair - mas no temos mais dinheiro
Os meus amigos todos esto procurando emprego
Voltamos a viver como h dez anos atrs
E a cada hora que passa
Envelhecemos dez semanas

Ento eu pergunto: qual seria a msica de nossa poca?


pensamentos despenteados para dias de vendaval
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