burburinho

a mquina do mundo repensada

livros por Gabriel Periss

O conceituado erudito brasileiro Haroldo de Campos (19232003) est margem da comercializao banalizante dos tempos ps-modernos. Sua arrojada produo potica, ensastica e de traduo, passados os anos de maior evidncia por causa do concretismo, ocupa agora um lugar a que apenas uma "imensa minoria" tem acesso, para usar um paradoxo de Octavio Paz, to admirado por Haroldo. O seu ltimo livro de poesia, A Mquina do Mundo Repensada, foi publicado pela Ateli Editorial em agosto de 2000.

Do ponto de vista grfico, uma obra realizada com muito bom gosto e esmero, quase que destinada a biblifilos (a tiragem inicial foi de 1.500 exemplares, extremamente modesta em comparao com as de cem mil exemplares dos livros de Paulo Coelho). Do ponto de vista literrio, pressupe leitores refinados, dispostos a repensar as referncias de Dante, Cames e Carlos Drummond de Andrade, bem como as contribuies da cincia ou, mais precisamente, da cosmologia e da fsica modernas.

O poema, de corte clssico, tem 457 versos. Emprega a terza rima, estrutura presente na Divina Comdia e tambm em alguns poemas de Gregrio de Matos (para citar outra preferncia de Haroldo), mas se trata de versos construdos com muita liberdade, recorrendo at a algumas violncias mtricas e em nvel prosdico, radicalizando assim a utilizao dos tercetos do A Mquina do Mundo de Drummond. Haroldo quer repensar a mquina do mundo, que , na verdade, uma metfora para a viso de mundo que se pode ter. A viso de mundo drummondiana faz da mquina uma oferenda que insulta o poeta e deve ser descartada. A viso de mundo de Dante faz da mquina o objeto de um grande poema teolgico, mediado pela amada Beatriz. A viso de mundo camoniana faz da mquina o prprio Deus, guiando o povo lusitano para a glria. J Haroldo prope, repensando-a, uma viso do homem de hoje:

[...] e eu nesse quase (que a tormenta
da dvida angustia) tero acidioso
milnio a me esfingir: que me alimenta

a mesma de saturno o acrimonioso
descendendo estrela zimo-esverdeada
a acdia: lume bao em cu nuvioso

Dialogando com Drummond, Haroldo pe em evidncia um estado de nimo, ou de desnimo, que j estava presente no poema A Mquina do Mundo, em que o "eu" se afasta do Sentido com as mos pensas. A acdia mencionada, no seu sentido original, no significa simplesmente preguia, mas justamente ausncia de repouso, uma fuga (desesperada?) daquele comprometimento radical com Deus, ou com um ideal poltico, ou social, ou intelectual, ou esttico, fuga que se percebe como lassido, como abatimento existencial. Parece-me que as mos pensas algo tm a ver com esta acdia. Por maior que seja ou tenha sido o grau de atividade artstica ou cientfica, o homem marcado pela akeda (em grego significa literalmente indiferena) no se sente chamado, no se sente vocacionado a trilhar nenhum caminho de autotranscendncia. Sua prpria face indiferente o mantm a salvo de qualquer possvel chamado ou vocao. Nada mais faz diferena, porque est tudo desessencializado (destitudo do esse, do ser), rebaixado ao horizontalismo, em que toda e qualquer coisa se torna, no final das contas, mercadoria descartvel nas prateleiras da vida.

Neste contexto, como pensar o nexo, aquele nexo primeiro que a mquina do mundo quis ofertar ao caminhante itabirano? No poema de Haroldo trata-se do Big Bang, a grande exploso ocorrida h doze ou quinze bilhes de anos que estaria na origem do universo auto-criado, universo em contnua expanso sem necessidade de um Deus Criador e Providente. A existncia desse Deus inviabilizaria a agnose, pois haveria, como intuiu Guimares Rosa, um "quem" das coisas, uma alteridade absoluta, uma presena real identificada com a verdade e a beleza, e haveria, em suma, a possibilidade do encontro, por via filosfica, ou mstica, ou artstica. Ou, em outras palavras, se existe uma presena viva, livre, efetiva e significativa no interior das formas; se existe uma palavra no interior da realidade, sustentando-a, esse logos foi o que Dante procurou e encontrou na viso beatfica; foi o que Drummond procurou, no encontrou e depois, encontrando, rejeitou; e o que Haroldo, repensando-o, faz desencadear nas trs ltimas estrofes (150-152), mais a coda, uma srie de perguntas e, no verso derradeiro, um loop verbal, coroado, digamos assim, pela morte. Em latim, nex significa morte, mas morte violenta, em oposio mors, entendida como morte natural:

[...]
sigo o caminho? busco-me na busca?

finjo uma hiptese entre o no e o sim?
remiro-me no espelho do perplexo?
recolho-me por dentro? vou de mim

para fora de mim tacteando o nexo?
observo o paradoxo do outrossim
e do outrono discuto o anjo e o sexo?

O nexo o nexo o nexo o nexo o nex

A morte brusca, provocada, a interrupo brusca do poema, truncando a palavra que remetia a um girar ad infinitum, morte transformando a esperana de um nexo explicativo em constatao da runa, essa morte interrupo da poesia que, uma vez mais, ousou ultrapassar a imanncia e agora, num tempo outro, num tempo ps-tudo, desemboca no nada, na inutilidade. E o que dizer do leitor que acabou de fechar o livro? Ter ficado insensvel aos maneirismos, aos malabarismos sintticos, s rimas requintadas, e, depois de tudo, afetada ou sincera demisso potica?

A Divina Comdia conclui com a contemplao do amor depois da morte. O poema de Haroldo conclui com a interveno da morte depois da contemplao no-religiosa do universo. Dante se entrega ao silncio do xtase. Haroldo, ao silncio do vertiginoso nada. Um perde os sentidos, mergulhando no Sentido. O outro perde os sentidos, mergulhando no agnosticismo. Um incorpora o indizvel como vitria da Palavra sobre o poeta. O outro admite a derrota da palavra do poeta como decorrncia do no-dilogo com o Verbo que desabitou o Universo.


pensamentos despenteados para dias de vendaval
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