burburinho

a crnica desaforada de rubem braga

livros por Gabriel Periss

Rubem Braga marcou a literatura nacional como um grande cronista, o que significa dizer que foi um grande escritor menor, na medida em que o gnero crnica ainda no possui (pelo menos segundo os cnones tradicionais) a nobreza de um romance ou uma novela.

Rubem Braga morreu sozinho, como pedira aos amigos, fazendo jus a uma auto-mitologia a do escritor introspectivo, mal-humorado, avesso ao convvio desgastante, o que explicaria em parte o desquite com a mulher com que se casou na juventude. Para manter essa anti-aura ao seu redor, Rubem chegava a responder atravessado ao f desconhecido que o abordasse na rua ou no bar, criando e mantendo assim uma imagem de rabugento que, no entanto, nada condiz com o relato saudoso que a atriz Tnia Carrero faz, ao contar os galanteios poticos de Rubem, por ela apaixonado, na dcada de sessenta.

Sua solido no significava misantropia: "sou um homem sozinho, numa noite quieta, junto de folhagens midas, bebendo gravemente em honra de muitas pessoas", escreveu numa crnica. O jardim pessoal que mantinha numa cobertura da zona sul carioca (Ipanema) era o paraso em que se escondia, fugindo do pecado original das amizades fceis e vazias, das amizades sem amor. Bebia em honra de grandes amigos (vivos ou mortos) como Alcntara Machado, Srgio Buarque de Holanda, Fernando Sabino e Otto Lara Resende, e certamente de Manuel Bandeira, de quem aprendeu a substantivao, o substantivo solitrio, honesto, limpo, livre dos adjetivos que mais bajulam do que ajudam. E nesta solido acompanhada, praticando a ascese das paixes, nasciam pginas de lirismo ou de uma percepo algo melanclica da vida que, antes que conhecidas pelos leitores de livros, eram os leitores de jornal que usufruam.

Esta relao entre escritor e jornal foi sempre muito frutfera para o primeiro. Escrever diariamente ou semanalmente para publicar nas pginas efmeras de um jornal disciplina, obriga o escritor a vencer as desculpas fceis da falta de inspirao. A vida a inspirao. Para Rubem Braga ter sido uma forma de profissionalizar-se. E, no caso da imprensa brasileira, houve tambm uma vantagem para as redaes dos jornais, sobretudo paulistas e cariocas. Podemos dizer - corroborando uma atenta observao de Ruy Castro - que os nossos jornalistas perderam o tom enfadonho e engomado de escrever graas influncia dos cronistas que ganharam cada vez mais espao a partir da dcada de sessenta. Uma escrita inteligente, sensvel, direta, caractersticas clarssimas no texto de Rubem.

Mas h uma crnica especialmente curiosa de Rubem Braga publicada no Dirio de So Paulo (em que Mrio de Andrade escrevia sobre msica), quando o cronista tinha apenas 21 anos de idade e mal comeara a trabalhar, depois de ter concludo o curso de Direito em Belo Horizonte. Incios do ano de 1934, poucos meses depois de sua estria, Rubem escreve uma crnica intitulada Ao respeitvel pblico: "Chegou meu dia. Todo cronista tem seu dia em que, no tendo nada a escrever, fala da falta de assunto. Chegou meu dia. Que bela tarde para no se escrever!" O que parecia ser apenas uma pequena encenao para comear a escrever mostra-se, contudo, um texto agressivo, violento, contra o leitor: "meu distinto leitor, (...) minha encantadora leitora, queiram ter a fineza de retirar os olhos desta coluna. No leiam mais. Fiquem sabendo que eu secretamente os odeio a todos; que vocs todos so pessoas aborrecidas e irritantes; que eu desejo sinceramente que todos tenham um pssimo Carnaval, uma horrvel quaresma, um infelicssimo ano de 1934, uma vida toda trapalhada, uma morte estpida!"

Ironizando a linguagem formal com que o "prezado e distinto leitor" era tratado pelos escritores, Rubem abre seu corao de urso e o despreza acintosamente. Como ousa voc, leitor(a), vir incomodar-me? "Aqui nesta coluna, eu nunca lhes direi nada, mas nada de nada, que sirva para o que quer que seja. E no direi porque no quero; porque no me interessa; porque vocs no me agradam; porque eu os detesto." Trata-se aqui de um modo bem direto de morte do autor e morte do leitor. No haver dilogo. O cronista cansou-se de ser objeto de curiosidade, bem como de indiferena, pois nada mais fcil do que no ser lido no jornal. Os dois ltimos pargrafos da crnica no do trgua ao leitor que, no entanto, no consegue mais desgrudar-se da leitura: "Fiquem sabendo que eu hoje tinha assunto e os recusei todos. Eu poderia, se quisesse, neste momento, escrever duzentas crnicas engraadinhas ou tristes, boas ou imbecis, teis ou inteis, interessantes ou cacetes. Assunto no falta, porque eu me acostumei a aproveitar qualquer assunto." Mas o fato que ele quis naquele dia ser absolutamente sincero e declarar pela primeira vez (e provavelmente ltima tambm) que odiava o seu leitorado. E, por fim: "Amanh eu posso voltar bonzinho (...). Saibam desde j que eu farei isto porque sou cretino por profisso; mas que com todas as foras da alma eu desejo que vocs todos morram de erisipela ou de peste bubnica. At amanh. Passem mal."

Bem, certamente no era nem foi o fim de tudo. Para j, escrevendo "at amanh", desfazia nas entrelinhas todo um clima forjado de sinceridade (verdadeira), que na verdade poderia ser simplesmente a ttica daqueles tmidos casmurros que precisam estar certos de que o outro no os procura por interesse e que quer ficar por amizade, sem nada esperar em troca. Mas ainda h uma outra leitura: queremos saber at onde vai o cronista que maltrata assim o seu leitor, gostamos da ousadia, da frase aberta. Queremos conhecer melhor quem tem a coragem de expulsar da sua casa algum de que ele precisa para o seu prprio sustento. Rubem Braga mais simptico por suas pragas do que por seus elogios, que certamente seriam ilusrios.


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